“A monoqueima é mais do que uma técnica; é um resgate às origens da cerâmica. Um retorno à simplicidade, ao essencial, ao prazer de unir modelagem, esmaltação e queima em um só fluxo criativo.”
Uma dúvida que virou transformação
Quem trabalha com cerâmica sabe: queimar as peças é uma mistura de técnica e expectativa.
E se fosse possível reduzir esse processo a uma única queima — economizando tempo, energia e esforço, sem perder qualidade?
Essa pergunta me acompanhou por muito tempo, até que decidi testar a monoqueima: um método em que modelagem, esmaltação e queima acontecem de uma só vez.
O que começou como uma busca por praticidade acabou se tornando uma descoberta profunda sobre o comportamento da argila, a relação entre esmalte e temperatura e, principalmente, sobre o tempo da cerâmica.

O que é monoqueima e de onde ela veio
Historicamente, a monoqueima é a forma mais antiga de queima.
Na China e na Coreia, as peças eram levadas diretamente ao forno a lenha, em uma única queima.
Com o avanço dos esmaltes e o início da produção industrial, especialmente na Alemanha e na Inglaterra no século XX, o processo foi dividido em etapas.
Modelagem, biscoito, esmaltação e queima final passaram a ser funções separadas, o que trouxe eficiência, mas também distanciou o artesão da experiência completa.A biqueima se consolidou como o método dominante — e acabou sendo reproduzida também na cerâmica artística.
Mas, ao estudar a monoqueima, percebi que havia um outro caminho possível.
Um caminho mais direto, mais consciente e, ao mesmo tempo, mais conectado às origens da cerâmica.
Como funciona na prática
A monoqueima começa muito antes do forno.
Ela depende de uma sequência de decisões que precisam conversar entre si: o formato da peça, a argila, o momento da esmaltação e, por fim, a curva de queima.Nos meus primeiros testes, usando forno a gás, as peças saíam tortas e empenadas.
Com o tempo, percebi que alguns formatos se comportam melhor do que outros:
peças com paredes altas e estrutura firme são mais estáveis, enquanto pratos e superfícies planas costumam deformar com mais facilidade.
Depois, comecei a observar a argila.
Em alguns testes, surgiam pequenas “espinhas” na superfície.
Com orientação da ceramista Flávia Vanderlinde, entendi que isso tinha relação com o que acontece dentro do forno — o que chamamos de dinâmica da queima: o conjunto de transformações físicas e químicas pelas quais a argila passa entre 20 °C e 1.100 °C.
Cada argila reage de um jeito, e conhecer essa reação é o primeiro passo para o sucesso.
Outro ponto essencial é a esmaltação.
O ideal é esmaltar a peça no ponto de couro avançado, quando ela está firme, mas ainda porosa.
Na correria do ateliê, nem sempre isso é possível.
Quando a peça seca demais, passo uma esponja levemente úmida antes de esmaltar — esse pequeno ajuste ajuda a evitar rachaduras.Também aprendi que a ordem importa: primeiro o lado de fora, depois o de dentro.
E que a atenção é fundamental.
Esmaltar uma peça crua é um exercício de presença, quase uma prática meditativa.
É nesse estado de concentração que as boas queimas acontecem.
As escolhas que fazem diferença
Existem muitas formas de aplicar o esmalte, mas na monoqueima é preciso cuidado.
Mergulhar uma peça crua num balde de esmalte, por exemplo, pode sobrecarregá-la de umidade e fazê-la trincar.
Hoje, uso uma jarra de bico fino, despejando o esmalte aos poucos enquanto a peça está apoiada em uma forma metálica simples.
Assim, evito tocá-la diretamente.
Depois que o esmalte seca, viro a peça e aplico o interior.
Também gosto muito da aplicação com pincel, especialmente com os esmaltes da Luciana Tomás, que permitem mais controle e uniformidade.
Outra escolha importante é o reaproveitamento do esmalte.
Quando ele escorre ou sobra, costumo reutilizar, mas com cuidado: o contato com a argila pode alterar a cor e o comportamento químico.
Por isso, faço pequenos ajustes nos lotes — um trabalho quase invisível, mas que garante consistência e previsibilidade.
A queima e o aprendizado que vem com ela
A queima é o coração da monoqueima.
É nela que dois processos acontecem ao mesmo tempo: a queima do biscoito e a fusão do esmalte.
Por volta dos 900 °C, ocorre o ponto de transição entre o fim do biscoito e o início da fusão do esmalte.
Esse é o momento mais delicado, e o controle da curva de temperatura faz toda a diferença.
Dominar essa etapa exige paciência, estudo e observação.
Com o tempo, entendi que cerâmica não é tentativa — é conhecimento.
A prática vem junto, mas a compreensão do que acontece dentro do forno é o que realmente traz consistência.
A monoqueima é mais do que uma técnica; é um resgate às origens da cerâmica. Um retorno à simplicidade, ao essencial, ao prazer de unir modelagem, esmaltação e queima em um só fluxo criativo.
Como na história de Lolo Barnabé, é voltar às origens, reacender a fogueira e redescobrir o prazer de criar com as próprias mãos.
E o melhor de tudo: funciona.
