“A monoqueima é mais do que uma técnica; é um resgate às origens da cerâmica. Um retorno à simplicidade, ao essencial, ao prazer de unir modelagem, esmaltação e queima em um só fluxo criativo.”
Uma dúvida que virou transformação
Quem trabalha com cerâmica sabe: queimar as peças é uma mistura de técnica e expectativa.
E se fosse possível reduzir esse processo a uma única queima — economizando tempo, energia e esforço, sem perder qualidade?
Essa pergunta me acompanhou por muito tempo, até que decidi testar a monoqueima: um método em que modelagem, esmaltação e queima acontecem de uma só vez.
O que começou como uma busca por praticidade acabou se tornando uma descoberta profunda sobre o comportamento da argila, a relação entre esmalte e temperatura e, principalmente, sobre o tempo da cerâmica.

O que é monoqueima e de onde ela veio
Historicamente, a monoqueima é a forma mais antiga de queima.
Na China e na Coreia, as peças eram levadas diretamente ao forno a lenha, em uma única queima.
As primeiras evidências de peças biscoitadas (no sentido que conhecemos hoje), foram registradas no Oriente Médio: os ceramistas dessa região utilizavam esmaltes alcalinos aplicados em finas camadas, eles continham estanho para opacificar e deixar a superfície branca, numa tentativa de imitar a porcelana chinesa. Para melhorar o aspecto, qualidade e aderência do esmalte ao corpo cerâmico, testaram várias possibilidades e perceberam que queimar a peça antes da esmaltação melhorava todos esses pontos. Dessa maneira a biqueima foi estabelecida (primeira queima pra enrijecer a peça e a segunda para vitrificar o esmalte).
Posterioremente a prática de duas queimas foi adotada também no Império Bizantino, pelos ceramistas que faziam sgraffito com engobe e posteriormente esmaltavam e queimavam para a vitrificação da superfície.
A partir do Oriente Médio a prática da biqueima (queima de biscoito e posterior queima de esmalte), se espalhou pelo mundo. Gostaria de ressaltar que tanto a prática da queima do biscoito quanto a própria evolução dos esmaltes e das queimas cerâmicas, sempre foram pautadas nas tentativas e erros em função de necessidades de melhoria dos processos. O estudo dos erros e a aprendizagem através deles tornaram possíveis todas as técnicas e conhecimentos que temos na atualidade.
Muitos séculos depois, por volta de 1800, a cerâmica também rendeu-se ao processo de industrialização preconizado pela Revolução Industrial. As manufaturas pequenas deram lugar à linhas de produção em que os processos de modelagem, acabamento, esmaltação, enforna e queima foram fragmentados e passaram a ser praticados por diferentes pessoas. Ao introduzir métodos de produção em massa, perceberam que as peças modeladas eram extremamente frágeis quando secas, o que dificultava tanto o seu manuseio quanto estocagem. A queima do biscoito as tornava mais enrijecidas e atribuíam a resistência mecânica necessária para diminuir as perdas de peças que rachavam e quebravam. E desse maneira a prática da biqueima passou a ser adotada como regra para a produção de peças cerâmicas coloridas.
A biqueima se consolidou como o método dominante — e acabou sendo reproduzida também na cerâmica artística.
Mas, ao estudar a monoqueima, percebi que havia um outro caminho possível.
Um caminho mais direto, mais consciente e, ao mesmo tempo, mais conectado às origens da cerâmica.
A crença de que a queima de biscoito cerâmico foi uma prática comum desde o início do uso de esmaltes líquidos em peças cerâmicas, é um erro comum. Na verdade, quando os esmaltes líquidos começaram a ser usados na história da cerâmica, as peças eram esmaltadas ainda cruas.
Um dos mais antigos registros que tenha sido queimada antes de receber esmalte tem evidências arqueológicas na China, e está registrada no livro Sung Porcelain and Stoneware, de Basil Gray. Para conseguir o efeito desejado de um esmalte chamado Chun, os chineses começaram a pré-aquecer as peças antes da esmaltação. Com isso garantiam que a peça estivesse completamente seca, e ao esmaltar a umidade do esmalte somada à umidade da peça não era excessiva e não causava trincas na peça crua.
Como funciona na prática
A monoqueima começa muito antes do forno.
Ela depende de uma sequência de decisões que precisam conversar entre si: o formato da peça, a argila, o momento da esmaltação e, por fim, a curva de queima.Nos meus primeiros testes, usando forno a gás, as peças saíam tortas e empenadas.
Com o tempo, percebi que alguns formatos se comportam melhor do que outros:
peças com paredes altas e estrutura firme são mais estáveis, enquanto pratos e superfícies planas costumam deformar com mais facilidade.
Depois, comecei a observar a argila.
Em alguns testes, surgiam pequenas “espinhas” na superfície.
Com orientação da ceramista Flávia Vanderlinde, entendi que isso tinha relação com o que acontece dentro do forno — o que chamamos de dinâmica da queima: o conjunto de transformações físicas e químicas pelas quais a argila passa entre 20 °C e 1.100 °C.
Cada argila reage de um jeito, e conhecer essa reação é o primeiro passo para o sucesso.
Outro ponto essencial é a esmaltação.
O ideal é esmaltar a peça no ponto de couro avançado, quando ela está firme, mas ainda porosa.
Na correria do ateliê, nem sempre isso é possível.
Quando a peça seca demais, passo uma esponja levemente úmida antes de esmaltar — esse pequeno ajuste ajuda a evitar rachaduras.Também aprendi que a ordem importa: primeiro o lado de fora, depois o de dentro.
E que a atenção é fundamental.
Esmaltar uma peça crua é um exercício de presença, quase uma prática meditativa.
É nesse estado de concentração que as boas queimas acontecem.

As escolhas que fazem diferença
Existem muitas formas de aplicar o esmalte, mas na monoqueima é preciso cuidado.
Mergulhar uma peça crua num balde de esmalte, por exemplo, pode sobrecarregá-la de umidade e fazê-la trincar.
Gosto de usar uma jarra de bico fino, despejando o esmalte aos poucos enquanto a peça está apoiada em uma forma metálica simples.
Assim, evito tocá-la diretamente.
Depois que o esmalte seca, viro a peça e aplico o interior.
Também uso aplicação com pincel.
Não é necessario formular esmalte ou argila especialmente para monoqueima. Podem ser utilizados os materiais vendidos em lojas e produtores de insumos ceramicos.
Outra escolha importante é o reaproveitamento do esmalte.
Quando ele escorre ou sobra, costumo reutilizar, mas com cuidado: o contato com a argila pode alterar a cor e o comportamento químico.
Por isso, faço pequenos ajustes nos lotes — um trabalho quase invisível, mas que garante consistência e previsibilidade.
A queima e o aprendizado que vem com ela
A queima é o coração da monoqueima.
É nela que dois processos acontecem ao mesmo tempo: a queima do biscoito e a fusão do esmalte.
Por volta dos 800 °C, ocorre o ponto de transição entre o fim do biscoito e o início da fusão do esmalte.
Esse é o momento mais delicado, e o controle da curva de temperatura faz toda a diferença.
Dominar essa etapa exige paciência, estudo e observação.
Com o tempo, entendi que cerâmica não é tentativa — é conhecimento.
A prática vem junto, mas a compreensão do que acontece dentro do forno é o que realmente traz consistência.
A monoqueima é mais do que uma técnica; é um resgate às origens da cerâmica. Um retorno à simplicidade, ao essencial, ao prazer de unir modelagem, esmaltação e queima em um só fluxo criativo.
Como na história de Lolo Barnabé, é voltar às origens, reacender a fogueira e redescobrir o prazer de criar com as próprias mãos.
E o melhor de tudo: funciona.

